
Qual a semelhança (ou diferença) entre tênis, frescobol e feedback?
Parece uma daquelas pegadinhas, certo? Mas essa comparação está num manual de procedimentos distribuído aos funcionários da 3M. A inspiração veio da crônica Tênis & Frescobol, de Rubem Alves, psicanalista, filósofo e teólogo, autor de diversos livros de crônicas e obras sobre filosofia da ciência e da educação. É uma lição de como deve ser o processo de feedback - o retorno que um colega dá ao outro sobre seu desempenho.
Confira (e reflita):
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola”.
Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que vai dirigir sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica seu objetivo claro de tocar, interromper e derrotar.
O prazer do tênis se encontra justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora do jogo.
Termina sempre com a alegria de um e tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca.
Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito, e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la.
Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui, ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro no frescobol é um acidente lastimável: o que errou pede desculpas e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo esse delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
Agora veja a comparação feita com o manual da 3M:
Se enviarmos o feedback como enviamos a bola num jogo de tênis, corremos o risco de destruir o colega, de criar conflitos e de distanciar as pessoas. Podemos ter o fornecedor do feedback feliz por ter falado, mas um receptor frustrado, com sentimentos de um perdedor. Se enviarmos o feedback como num jogo de frescobol, estaremos cuidando para que o outro não seja um perdedor. O feedback deve ser enviado com sentimento de ajuda, para o outro acertar. Para ninguém ganhar sozinho, para que dois sempre ganhem juntos. Há um desejo de que o outro cresça continuamente.
Fonte: ALVES, Rubens – Tênis e Frescobol
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