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domingo, 7 de novembro de 2010

UMA EXPERIÊNCIA TEMÁTICA

Imagine que você é um pirata do século XVI. Seu nome é Barba Ruiva e você é considerado o terror dos mares. Sua liderança é inquestionável, tanto quanto cruel. Seus correligionários tremem à sua presença, seus adversários e oponentes fogem e seus inimigos já estão mortos. Você...

Ah, quer saber como continua essa história? Então conta pra nós. Pois é assim que funciona um treinamento temático, cada participante tem uma personagem dentro do tema, para criar e vivenciar. O tema, que pode variar entre períodos históricos (um tempo no passado), mitos (convenção de bruxas, Rei Arthur e sua Távola Redonda, os deuses do Olimpo), metáforas (futebol, olimpíadas, viagens), fantasias (vida em outro planeta, um país que não existe, um tempo no futuro), etc., etc., é a arena onde podemos exercitar comportamentos e vivenciar a aprendizagem de forma acelerada.

O que é importante considerar é o planejamento da experiência temática. Ele deve atender às necessidades e objetivos do grupo de treinandos da empresa (quando envolvidas) e do compromisso de desenvolvimento que todo processo educativo deve ter. Ou seja, não pode ser uma grande festa à fantasia por si só. O facilitador deve ser capaz de trazer à tona reflexões importantes sobre os estereótipos que se manifestem durante a experiência, além de orientar a execução das dinâmicas que devem ser totalmente criadas e/ou adaptadas para o tema proposto.

Sendo o treinamento temático uma grande metáfora, é sempre muito rico de reflexões e insights, e não há como prever as múltiplas possibilidades que a experiência traz para seus participantes. Assim, é indispensável que o facilitador tenha uma sólida formação nas ciências do comportamento, como filosofia, psicologia, antropologia, comunicação ou similares, com uma ampla visão de cultura geral e forte bagagem didática. Porque, do contrário, muito do que se processar durante a experiência não poderá ser aproveitada pelo grupo ou pelos indivíduos. É preciso considerar que nem todas as pessoas vão compreender a experiência em sua plenitude, porque somos profundamente moldados por nossos preconceitos e, muitas vezes, estamos cegos para o que está um palmo à nossa frente.

É aí que o facilitador deve atuar. Contribuindo para que os aprendizes avancem pelo caminho que eles mesmos vão abrindo, propondo uma reflexão sobre o comportamento expresso para gerar uma revisão, em nível mais profundo, da percepção que temos da realidade, expandindo-a, modificando-a e, conseqüentemente, transformando o comportamento, gerando uma nova realidade.

É claro que essa é a função da educação, em qualquer de suas manifestações; entretanto, a vantagem desse treinamento é a proposta divertida e envolvente que oferece, fazendo do aprendiz um participante ativo, não apenas audiência, estimulando de forma consistente sua contribuição e autopercepção e atuando num nível muito mais vivencial e menos teórico.

Outra facilidade permitida num treinamento temático é a possibilidade de rever estereótipos que moldam nosso comportamento, sem gerar traumas ou aflições. Bem, não quer dizer que o participante fique isento de inquietações mas, de certa forma, esse é um dos objetivos da educação. Estar inquieto, inconformado com o que aí está, é premissa importante para o crescimento.

Um exemplo de revisão de estereótipos é o mito da bruxa, que é sempre colocada, em nosso imaginário infantil, como uma figura má, feia, egoísta e vingativa, em contraponto com a fada madrinha, que é um anjo de bondade e beleza. Entretanto se vamos nos aprofundar nessa percepção, há mensagens subliminares que produzem respostas inconscientes. A bruxa, que é má, usa o poder em proveito próprio, enquanto que a fada faz o bem para os outros. Assim somos condicionados a acreditar que nosso poder pessoal não deve ser usado em proveito próprio. Outras culturas pensam de forma diferente, como os Estados Unidos, por exemplo, onde a bruxa é cultuada e imitada, e onde, não por acaso, se estabeleceu o "sonho americano do self-made-man" o indivíduo que faz por si mesmo.

Pense nisso!

Dulce Magalhães é Ph.D. em Planejamento de Carreira pela Columbia University Website: http://www/work.com.br

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