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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

QUAL É A PARTE QUE TE CABE?

Há um tempo atrás li excelente texto de Júlio Clebsch, Gerente Editorial da Revista Liderança e fiz muito bem em guarda-lo, pois as coisas custam muito a mudar em nosso pais, infelizmente para todos nós.

Hoje resolvi reproduzi-lo para que as pessoas reflitam sobre o assunto e que tenham a oportunidade de debatê-lo com outras pessoas. Só assim, conseguiremos transformar o nosso Brasil!

Existem muitas coisas que caracterizam este país. Entre elas, podemos citar a tolerância com que nós, brasileiros, aceitamos as “transgressões leves” ou, se preferir, os pequenos delitos. Trata-se, além do futebol, samba e carnaval, de uma instituição nacional. Iniciarei este editorial citando as mais comuns:
  • As famosas festinhas que não respeitam horários e incomodam os vizinhos.
  • Furar filas nos mais diversos locais em que elas são necessárias e ainda se passar por esperto.
  • Há aqueles que, ao primeiro sinal de engarrafamento, põem o carro no acostamento e seguem em frente.
  • Há outros que “levam” pequenas lembranças de hotéis e companhias aéreas. Você que não leva nada (burro) está pagando por esses custos, sabia? As empresas, que não são burras, agregam esses valores nos preços finais.
  • Os que pagam metade da tarifa do ônibus ao “acertarem” esse valor com o trocador e passam por baixo da roleta.
  • E o pai que condena veementemente a cola, desde que ela seja praticada pelo filho do vizinho. Se o dele assim proceder, é esperteza. 

Dessas pequenas transgressões, podemos evoluir para mais algumas. Nada, também, muito sério:
  • Aquele dinheirinho que a gente paga para o guarda “esquecer” aquela infração de trânsito insignificante.
  • O varejista que se aproveita da boa-fé do cliente. Você acha que isso não acontece? Então, vai ver que a famosa expressão “freguês de carteirinha” nasceu de geração espontânea! Aliás, em que outro país do mundo, além do Brasil, a palavra “freguês” é sinônimo de otário?
  • Há os que exaltam o elevado índice de malandros que habitam o Congresso Nacional, mas que não perdem a oportunidade de comprar um CD pirata na feirinha da cidade.
  • Aliás, o mesmo lojista que denuncia os vendedores de CDs piratas pratica o famoso caixa dois. Acho que ele se baseia no famoso ditado: “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.

Como crimes – sejam eles pequenos ou não – quase sempre mantêm conexões com outros crimes, chegamos a coisas do tipo:
  • O dublê de bom-moço e bicheiro Waldemir Paes Garcia, codinome Maninho, lembra? Foi assassinado anos atrás no Rio de Janeiro. Pobre cidadão. Comoção estadual. Claro, durante muitos anos o jogo do bicho foi visto como algo positivo, uma expressão lúdica da personalidade tupiniquim, uma transgressão leve. Afinal, as 1,4 mil bancas do jogo e os 7 mil caça-níqueis que ele controlava na cidade maravilhosa geravam empregos. Foi isso que me fez entender o porquê das diversas celebridades que se apresentaram no funeral do rapaz. Entre elas, estavam lá: Edmundo, “o Animal”; o “páginas amarelas” da Veja, Romário; o ídolo do Flamengo, Grêmio e Fluminense, Renato Gaúcho (atual técnico do Grêmio), além de famosos da sociedade carioca.
  • Durante a campanha do desarmamento, houve indivíduos que construíram armas com o intuito de faturar um “extra”.
  • Várias pessoas se apresentaram como vítimas do desabamento do Palace II. Também queriam ver se faturavam um “extra”. Ajudem-me a elucidar um dilema: quem é pior, o Sérgio Naya ou as falsas vítimas de seu empreendimento picareta?
  • E o Gugu, famoso ex-apresentador do SBT, que autorizou uma falácia para milhões de telespectadores e continua livre, leve e solto. Lembra-se disso?
A cultura da esperteza e do trambique – só o leve, é claro – está tão arraigada em nossa sociedade que ser um cidadão modelo exige que se reme contra a maré ou que se beire a santidade. Não à toa, a figura do malandro virou até ópera. Por essas e outras, passei a diferenciar esperteza de inteligência, apesar de serem sinônimos.

Para mim, esperto é o cidadão que vive de pequenos golpes e vai passar toda a sua vida pensando no curto prazo e escapando de seus perseguidores – como o personagem Sísifo, da mitologia grega. O inteligente é aquele cidadão que vai desenvolver sua vida de forma a não ter de aplicar pequenos golpes nem passar todo o tempo tentando burlar a lei. Ele vive para o longo prazo e dorme com a consciência tranquila. Por mais que, muitas vezes, passe por burro, freguês e otário.

Um grande abraço e até a semana que vem. 


Autor: Júlio Clebsch - Gerente editorial da revista Editora Quantum- 
julio@editoraquantum.com.br

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