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sábado, 9 de março de 2013

SERÁ QUE ISSO PEGA?


Cada vez mais a ciência transforma as perspectivas de vida e as convicções da raça humana. Cerca de 200 anos atrás quem diria, sem parecer doido varrido, que o homem voaria pelo planeta em questão de horas chegando, mesmo a sair de um lugar numa determinada hora e chegar do outro lado do mundo em horário anterior ao que saiu? Eu me recordo que, há não tanto tempo assim, um dos passeios preferidos do meu pai era o Aeroporto de Congonhas para ver a decolagem ou a aterrissagem de um avião chamado “Caravelle” que hoje, certamente, repousa em algum museu de aviação pelo mundo afora.  Internet, telefonia móvel, viagens interplanetárias, cura de doenças como a tuberculose que, de tão fatal, mas, ao mesmo tempo, charmosa, ganhou o apelido de Mal do Século, só que, lá do século XIX, tudo isso são apenas alguns exemplos esparsos do quanto a ciência tem revolucionado conhecimentos, crenças, convicções, filosofias, a sociedade humana por inteiro. 

Não sei, não, mas tenho a forte impressão que, em breve, a ciência vai conseguir provar que certos conceitos até agora tidos como abstratos, são muito mais concretos e palpáveis do que se pensa ainda hoje.  Exemplo? O mau humor. Eu tenho achado que, logo, logo, vai ser demonstrado por “a” mais “b” que o mau humor tem peso, altura, massa corporal e ocupa lugar no espaço.  Alguém duvida? Pois, então, preste atenção numa criatura mal humorada. A sensação que se tem é que, quando alguém assim entra, por exemplo, em um elevador, não cabe mais ninguém. Fica parecendo que o elevador não vai conseguir nem sair do lugar por conta do excesso de peso, do peso do mau humor. Mal humorado em reunião de trabalho é uma tristeza. Não há plano que possa dar certo, iniciativa que tenha alguma chance de sucesso, futuro minimamente iluminado. É tudo escuro, pesado, arrastado, difícil. E cansa o dobro, pois custa o dobro de esforço dos demais para permanecer no local ou no evento.

O mal-humorado é uma espécie de escoteiro do azedume. Está sempre alerta, pronto para revidar a qualquer abordagem. Meu pai costumava dizer que há uns tipos que dormem com as pernas encolhidas só para poder acordar e começar o dia desferindo um par de coices. É a cara do mal-humorado. Mas, que ninguém pense que o coice tem, sempre, que estar revestido de grosseria, má-criação. Nada disso. O mal-humorado é capaz de muitas variações sobre o tema. O coice pode vir sob a forma daquele olhar fuzilante, daquela expressão de enfado, sobrancelha enrugada. É o coice ingressando nos salões do protocolo. Alguns se refinam tanto a ponto de bufar. Os mais contaminados bufam alto. Outros insinuam o bufo, mas o suficiente para que se perceba sua presença. E o seu mau humor, é claro. Se, ao tratar com o mal-humorado, o circunstante mais incauto não tomar alguns cuidados como, por exemplo, se agasalhar quando tiver que conversar com um deles, corre o risco de apanhar uma pneumonia. Pois os tipos são piores que vento encanado apanhado logo depois de um banho quente. Com sorte, o desavisado sai no mínimo espirrando.

Um mal-humorado pode se desenvolver nas melhores famílias. Não é que eles deponham de forma incorrigível contra a dignidade do clã familiar de ninguém. É só um acidente, como tantos outros. Não é aconselhável que as famílias escondam seus membros dotados desse problema, ainda que possa atentar um pouco contra o orgulho das dinastias. Afinal, pode ser que o caso tenha solução já que a esperança é a última que morre. E, quando se trata de um caso com quem se tenha mais proximidade, há uns momentos em que qualquer um se sente tentado a interferir. E pode fazer perguntas como: “o que é que você tem? Está com algum problema?” Eu nunca vi um mal-humorado responder qualquer outra coisa que não seja “Eu estou ótimo. Não tenho problema algum”. A resposta pode vir acompanhada de um “Quem deve ter problema é você”. Tudo bem temperado com generosas porções de mau humor. O mal-humorado nunca reconhece o seu mau humor e, por conta disso, vai se mal-humorado pela vida afora, vai se tornando cada vez mais chato, mais arredio. Afinal, quem é que vai querer conviver com um tipo desses, que não seja por obrigação de oficio ou pagamento de pecado, penitência, coisas assim? O mais curioso de tudo é que ninguém ganha coisa alguma com isso. Nem o mal-humorado nem os que estão por perto. É mais ou menos como cigarro: ruim para o fumante e para os chamados fumantes passivos. Será que os que ficam por perto de um mal-humorado poderiam ser qualificados como “mal-humorados passivos”?  

Não tenho idéia de como dar nomes a nenhuma dessas categorias e isso também não faz a menor diferença. O que seria bom, mesmo, é se a ciência pudesse identificar as características físicas do mau humor. Quem sabe assim não se conseguiria registrar a praga em filme ou em fotografia, espalhar pela internet, colocar no “You-Tube”, criar uma comunidade no “Orkut”, fazer, enfim, com que todo mundo pudesse ver como o mau humor é sem graça, feio, inconveniente e totalmente improdutivo. Todo mal-humorado deveria ganhar, dos deuses, uma enorme verruga no nariz, como a daquelas bruxas de desenho animado. Quem sabe se materializando o mau humor, os mal-humorados de fé não acabam percebendo que, no fundo, ninguém dá a menor importância a eles e às suas caras feias. Aí, talvez, contraíssem algum bom humor, só por ranhetice.

Autor: Bellini Lima - http://www.slideshare.net/BelliniLima

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